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20 de jan de 2011

SEXTA, 14 DE JANEIRO DE 2011: O primeiro dia marcante desse ano (HOMENAGEM A MARCIA PRADO).

A esperança de dias melhores aumentam na época de ano novo. Para mim, esse desejo nunca foi tão forte como na passagem de 2010 para 2011.

Mas nada ocorreu em minha vida nos primeiros dias de 2011, até que veio a sexta feira14 de janeiro. Foi o primeiro dia marcante de um ano em que espero tempos melhores.

Fazia meses que eu não vivenciava a bicicleta como transporte na cidade. Naquela sexta-feira, por volta das 6:30 da manhã eu e minha magrela já deslizávamos pelas ruas vazias e molhadas que separam o Ipiranga do centro de S. Paulo. Foi muito bom sentir novamente a brisa da manhã batendo no meu corpo.

Joguei futsal e depois malhei um pouco: preciso injetar ânimo à musculatura que esteve bem preguiçosa em 2010.

Saí do centro às 11hs. e pedalei rumo à Cidade Universitária. As avenidas Consolação e Rebouças estavam repletas de carro, com os estressadinhos e espertalhões de sempre, mas o trânsito fluía.

Durante a tarde, o céu escureceu e uma chuvarada homérica desabou sobre a capital paulista. Fiquei preocupado se haveria condições climáticas para a realização de um importante evento no início da noite.

Mas o improvável aconteceu: no final do dia, o céu se abriu sobre a Praça do Relógio. Nuvens pesadas ainda ameaçavam o brilho do céu azul, mas eu percebi que nada atrapalharia o momento de esperança que estava por vir. Montei na magrela e deixei as dependências da Cidade Universitária.

A Av. Rebouças estava tomada por automóveis parados, quase todos servindo de transporte apenas para seus respectivos condutores. Muito espaço ocupado só por uma pessoa! É a chamada a privatização do espaço público.

Apesar de pedalar meio exprimido, praticamente pela sarjeta, tive condições de ignorar toda aquela confusão. O giro dos pedais seguiam o ritmo das canções que passavam pela minha cabeça.

A noite nem tinha se firmado e a Praça do Ciclista (Avs. Paulista/Consolação) já era um mosaico de bicicletas e seus pedalinos.

Uma faixa pendurada no túnel sob a praça dizia: "TODOS SOMOS MÁRCIA".

Naquela data, há 2 anos atrás, a ciclista Márcia Prado, que havia adotado a bicicleta como meio de transporte, foi vítima de uma manobra imprudente de um ônibus que transitava pela Av. Paulista... e deixou esse mundo.

Naquele triste 14 de janeiro de 2009, eu me encontrava do outro lado do planeta, vivenciando talvez os dias mais especiais da minha vida até então: a mágica viagem de bicicleta pela Nova Zelândia.

Eu estava vivendo intensamente o "mundo da bicicleta" e toda sua riqueza. Eu pedalava quase todos os dias por paisagens de tirar o fôlego, num país que não só respeita, como também respira bicicleta. Eu vivia meus tempos de cigano: cada noite dormia num lugar diferente, cada dia conhecia regiões e pessoas especiais. Trocava idéias com cicloturistas de cada canto da Terra e tudo isso robustecia ainda mais as minhas crenças.

Jamais podia imaginar que naquele mesmo momento, lá na minha longínqua terra natal, justamente na avenida que mais orgulha os paulistanos (orgulho de que?) uma pessoa tão próxima havia sucumbido debaixo de um ônibus público.

Só fiquei sabendo disso dias depois, quando parei numa das pequenas localidades da Nova Zelândia para telefonar para minha mãe. Fiquei chocado!

Eu não conhecia a Márcia, mas penso que éramos próximos porque ela também tinha um sonho de ver uma cidade melhor, uma sociedade mais justa e a bicicleta era a sua ferramenta. É incrível como, muitas vezes, as pessoas mais próximas que temos são aquelas que não conhecemos.

Dois anos depois, no dia 14 de janeiro de 2011, eu revivi as sensações de quando pedalava pela Nova Zelândia.

A Av. Paulista estava congestionada de veículos. Buzinas, motores, barulhos, impaciência e agressividade... Olhares vazios, solitários e cansados das pessoas no interior de caixas metálicas.

A luz intensa dos refletores da avenida não foi capaz de ofuscar a lua crescente apareceu entre os prédios.

Aos poucos, cerca de 100 ciclistas tomaram a faixa da esquerda de uma das vias mais importantes do país. Não, não fomos pedalando... fomos caminhando, empurrando nossas bicicletas.

Eu (o primeiro de camisa branca à direita) na homenagem à Márcia Prado, na Avenida Paulista.
Foto Willian Cruz
(Blog Vá de bike)
Ao mesmo tempo que sentia uma grande tristeza, meu coração pulsava esperança. Mas o clima entre os participantes era de solidariedade, esperança e saudade. Nada de protesto, muito menos de revolta.

Durante a caminhada até o Memorial (local onde a Márcia faleceu - Av. Paulista, entre Pamplona e Campinas, pista sentido Consolação), um agente da CET nos proporcionou uma ótima surpresa: ele não reprimiu a passeata, muito pelo contrário, ele foi extremamente solidário, parando o trânsito para nossa segurança.

Foto Willian Cruz
(Blog Vá de bike)
A bicicleta branca ("ghost bike") do Memorial Márcia Prado, que há 2 anos faz parte do cenário da mais paulistana das vias, ficou repleta de rosas e velas acesas. Orações, abraços e recordações...

No final, o agente da CET parou o tráfego da pista sentido Consolação para que os ciclistas a ocupassem e fizessem 1 minuto de silêncio. Não houve sequer uma buzinada dos motoristas. Sim, todos somos Márcia !!

Foto Willian Cruz
(Blog Vá de bike)
O evento do dia 14 de janeiro de 2011 não se reduziu apenas à uma simples manifestação de saudades. Da mesma forma que a Bicicletada não é um  passeio ciclístico.


Esses movimentos trazem em seu cerne a busca por um mundo melhor, por uma cidade mais coletiva e saudável. Não se trata só de protestar contra a violência no trânsito e de exigir mais espaço para as bicicletas, mas também mostrar indignação com essa sociedade do automóvel, que é uma das facetas da "sociedade do espetáculo" de Guy Debord.


Não se apregoa contra os carros, mas não se aceita a filosofia do automóvel como um fetiche e tudo mais que se junta a isso (consumo desenfreado, esculhambação de valores, danos ao meio ambiente...). Esses movimentos questionam, por exemplo, como governos e sociedade comemoram cegamente o recorde histórico de 3,5 milhões de carros produzidos no Brasil e não refletem sobre os impactos negativos que a opção pelo transporte individual motorizado causa em nosso cotidiano, como muito bem apontou Isacir Andreoni, em "Um feliz ano novo para a indústria automobilística"


A homenagem a Márcia Prado foi mais uma forma de mostrar que não estamos indo bem, que não há progresso coisa alguma, que esse otimismo é   equivocado. Sinto-me triste por isso... 


Por outro lado, sinto esperança quando lembro-me daquele marcante 14 de janeiro de 2011 e quando noto que são muitos aqueles que, mesmo com todas as mazelas, adotam um meio de transporte mais ecológico e social. Há sim esperanças para que um dia os fetiches do consumo desvairado sejam derrubados, o "Deus Mercado" pare de ser glorificado e que soluções sejam pensadas levando-se em conta todos os seres do nosso mundo.


No livro "Vagabundos Iluminados" de Jack Kerouac, um dos personagens imagina uma revolução de valores promovida por andarilhos de mochila nas costas. Que a revolução seja não só de mochileiros, mas também de bicicleteiros e outros "vagabundos iluminados".


Feliz 2011 a todos, que as tristezas se revertam em reflexões e alimentem nossas esperanças por um mundo melhor.

Mais sobre Márcia Prado: 

Sobre a homenagem de 2011:


Homenagem a Marcia Prado em Aracaju (14/1/11):

Onde estão as "Ghost bikes" em São Paulo: 

Referência de livros: 
"A sociedade do espetáculo", Guy Debord, 1997. 
"Os Vagabundos Iluminados", Jack Kerouac 
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