Ultimas Postagens

20 de jun de 2011

BICICLETAS E ÔNIBUS EM SP: É POSSÍVEL UMA RELAÇÃO PACÍFICA?

MORTE DE ANTONIO BERTOLUCCI

São Paulo, manhã de segunda feira, 13 de junho de 2011.

O ciclista Antonio Bertolucci, de 68 anos, foi atropelado e morto na Av. Sumaré. Um ônibus de turismo não observou a distância legal e passou por cima dele. Antonio era experiente ciclista e tinha mais de 15 bicicletas. Algumas notícias que circularam na internet:





No mesmo dia, pipocou vários e-mails na lista de discussões do Clube de Cicloturismo. Eu estava num clima de desânimo e tristeza, até porque ainda me sinto inseguro de andar de bici em SP, devido ao acidente com um ônibus que sofri em fevereiro. No meio dessas emoções, escrevi um desabafo na lista:

Mais uma merda acontecesse.
Até quando?
Depois que li essa notícia, me bateu, pela primeira vez na vida, uma sensação a respeito se vale a pena continuar correndo esse risco de pedalar por essa droga de cidade. 
Eu me pergunto: se eu tivesse um filho ou uma esposa, se eu concordaria de coração que eles pedalassem constantemente pela cidade? Claro que aceitaria, mas meu coração não estaria em paz. Que vergonha reconhecer isso...
Eu acredito nesse meio de transporte por ser mais ecológico e pacificador das relações humanas. Acredito que o transporte de bicicleta seja um meio de revolucionar e mudar um monte de porcarias que existe por aí, causado por esse sistema decaptador que prevalece e impera.
Mas será que vale a pena?
Quem acompanha meu blog já leu que um ônibus bateu em mim e eu apaguei na rua. Tive sorte. Mas nosso amigo não teve.
É muita derrota e não é fácil suportar.
Putz, que desânimo...

O ciclista Willian Cruz, com toda razão, expôs os motivos pelos quais esse fato NÃO pode ser caracterizado como mero acidente: http://vadebike.org/2011/06/por-que-nao-foi-acidente/
 
Em protesto, ciclistas pintam o chão para lembrar aos
desavisados sobre o direito de pedalar em ruas (Foto 'O Estado de S. Paulo')
Segundo matéria do jornal 'O Estado de S. Paulo' (14/6/2011, C3), se todos os planos e promessas de ciclovias feitos nos últimos anos tivessem sido cumpridas, S. Paulo alcançaria o número de 522 km de vias e faixas para ciclistas no final de 2012. Hoje, só temos 35,7 km, e ainda esse número é bem discutível. 

O prefeito Gilberto Kassab, ao ser questionado sobre a construção de ciclovias, afirmou que a meta traçada de 100 km de faixas exclusivas para ciclistas não é um "compromisso" da Prefeitura, mas uma meta ('O Estado de S. Paulo', 15/6/2011, C3). 

Mesmo considerando que ciclovia não é a solução do problema, condena-se o jogo de palavras do prefeito. Compromisso ou meta, que diferença faz? Típica balela, bazófia, fanfarrice de político-governante que quer justificar o injustificável.

A "FINA EDUCATIVA"

Na mesma semana, a revista "on line" Época publicou uma reportagem (assinada pela jornalista Sabrina Duran) falando da relação entre ciclistas e motoristas de ônibus, comentando a chamada "fina educativa" que quase sempre tomamos de ônibus e outros veículos motorizados. Vale a pena conferir a matéria, inclusive com o relato sobre o meu acidente com ônibus em fevereiro deste ano.


"LUGAR DE BICICLETA É NA CALÇADA"

Quantas vezes o amigo leitor não foi fechado e ouviu essa frase de seu opressor? Isso aconteceu com o ciclista Igor Soares Lopes, mas ele fotografou o infrator:

Posteriormente, Igor informou o ocorrido ao guarda da CET, mostrando a foto. O oficial fez anotações. Mas Igor resume bem o descrédito das nossas autoridades: "... confio mais na grande massa do que em um cara da CET que diz que ia tomar providência...":

EXEMPLOS DO INTERIOR

Algumas cidades do interior avançam em planos cicloviários. O jornal 'O Estado de S. Paulo' de 19/6/2011 deu destaque a Sorocaba e Guararapes, no interior de SP:
 
Clicar para ler essa matéria

"CICLISTA TEM QUE MORRER"

E essa frase? Quem já ouviu?

Não foi de um ônibus, mas poderia ter sido. A ciclista Claudia Franco ouviu essa frase de uma mulher residente no elegante Edifício Park Belle Vue, na R. Deputado Laércio Corte, 625, que pilotava um desses tanques de guerra chamados de SUV. A condutora gritou essa frase para Claudia, depois de quase ter atropelado-a.

Era sábado de manhã e Cláudia pedalava para tentar se acostumar mais com o trânsito, a fim de deixar mais seu carro em casa. No geral, essa atitude representa o tratamento que a droga da nossa sociedade dá a uma cidadã que está pensando na melhoria da própria socidade. Mais detalhes (com fotos e vídeo muito esclarecedor: http://ciclofemini.com.br/?page_id=3316&preview=true

BASTA!!

Chega dessas aberrações sociais. Chega de violência (física e verbal)!! O Poder Público precisa atuar!

Primeiro: A LEI PRECISA SER RESPEITADA -  todos os dias a frase de Getúlio Vargas ("Lei, ora a lei") é posta em prática no trânsito esquizofrênico das grandes cidades brasileiras. É preciso cumprir a distância legal de 1,5 metros. É preciso multar os infratores, ainda que seja ínfima a sanção (R$ 85,13 e 4 pontos na carteira). Os "homens da lei" precisam ser "homens de confiança" da sociedade. Aliás, alguém conhece um caso da aplicação dessa multa?

Segundo: EDUCAÇÃO URGENTE - o convívio pacífico entre ciclistas e veículos motorizados precisa ser estimulado pelo Poder Público. Auto escolas precisam tratar seriamente dessa questão. As pessoas precisam saber que ciclista trafega pelas ruas e não em calçadas, que existe uma distância legal de 1,5m, etc. Isso pode ser feito por campanhas e, para tanto, sugere-se: cada comercial de carro deveria ser obrigado a trazer uma mensagem falando sobre os direitos e deveres de ciclistas e de motoristas, tal como acontece com os anúncios de cigarro e a saúde do seu consumidor. Outra sugestão é expressada pela foto abaixo (já postada nesse blog), de um ônibus na Nova Zelândia: 


É muito difícil fazer isso? Será incompetência, burrice, falta de criatividade, falta de vontade por parte de nossas autoridades ou um misto de tudo isso?

Enquanto essas medidas ficam no campos do imaginário, cabe a sociedade (Massa Crítica, por exemplo) cobrar pela implementação de uma política pública que já existe no papel. Caso contrário, aquelas palavras de Getúlio Vargas continuarão se reproduzindo na prática em cada esquina dessa cidade desarticulada e violenta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Traduzido Por: Mais Template - Designed By