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15 de ago de 2012

CONTRASSENSOS CICLOVIÁRIOS: Mais ciclistas, mais acidentes - diz o Governo de SP


Quem mora em SP deve ter acompanhado a polêmica manchete do Diário Oficial do Estado de SP, em sua edição de 11/jul./2012: "Mais ciclistas, mais acidentes". Não acredita? Veja abaixo:

Veja a notícia na íntegra aqui

Pois é... essa porcaria de manchete serviu para noticiar  uma pesquisa feita pela Secretaria de Saúde sobre o aumento do número de acidentes envolvendo ciclistas. Segundo o estudo, 9 bicicleteiros internados por dia em hospitais públicos estaduais devido a acidentes de trânsito; em 2011, foram 3 mil internados no SUS paulista, a um custo de mais de R$ 3 milhões para os cofres do Estado.

O texto reproduziu a opinião de um médico do Hospital das Clínicas: "Para não colocar a vida de quem pedala em risco, recomendo não usar a bike no trânsito de São Paulo." afirmou o Dr. Jorge dos Santos Silva.

Em conseqüência disso, veio uma enxurrada de críticas e até sátiras, uma delas dizendo: "Mais dentes, mais cáries" (veja aqui).

O Governo de SP percebeu a bobagem e no mesmo dia emitiu uma nota desautorizando a publicação e defendendo a bicicleta como transporte (veja a retratação)

Só que o erro já estava consumado, não é mesmo governador Alckimim?

"O Estado de S. Paulo", p. C6, 14/jul./2012
satiriza o governador tucano Alckimin
O caso é um típico exemplo de distorção de fatos... ou da capacidade de se espremer números para que eles confessem aquilo que o interlocutor deseja.

Em primeiro lugar, a matéria é simplista e contém inúmeros equívocos, como apontou o blog Vá de bike ao provar justamente o contrário: quanto mais ciclistas, menos acidentes.

Minha leitura sobre os dados apresentados na pesquisa é que o Poder Público de SP está falhando no seu dever de oferecer infraestrutura às pessoas que optam pela bicicleta como meio de transporte. E agindo assim, desestimula essa opção não poluente, prejudicando a sociedade como um todo.

Falar que a bicicleta nas ruas faz mal para a sociedade é subverter os dados e eximir o Estado do cumprimento de suas obrigações.

O doutor erra ao conjecturar que o problema pode ser resolvido com a retirada de ciclistas das ruas. É o mesmo caso do marido traído, que pega sua mulher com outro no sofá: para solucionar o seu drama, ele tira o sofá da sala.

Quem propõe a saída de ciclistas das ruas não olha, por exemplo, para os inúmeros anônimos que usam a bicicleta no trabalho. Vejam abaixo esse jovem entregador de pães no centro de SP... A solução é sua saída das ruas?


E o trabalhador abaixo que entrega bebidas? Deve fazer seu ofício com um carro ou moto? A sugestão do doutor, se levada a sério, passaria pelo aumento de motorizados nas ruas.


As inúmeras bicicletas que abastecem de água os escritórios do centro de SP seriam adequadas só para parques, pela  proposta do médico.


Em verdade, o doutor não entende do assunto, até porque se esqueceu do Código de Trânsito, uma lei nacional e atual que estabelece que a bicicleta é um veículo autorizado a circular em vias urbanas e rurais, com preferência sobre os automotores. A lei precisa ser aplicada, é esse o ponto!

Mas o grande problema não foi a pesquisa e nem a sugestão do médico. O erro crasso foi do Governo do Estado, pois ao estampar aquela notícia em seu jornal oficial, se posicionou, pelo menos naquela oportunidade, contra o uso da bicicleta como meio de transporte.

No dia seguinte (12/jul./2012), os jornais noticiavam esse fiasco do Governo Paulista; curiosamente, na mesma data, "O Estado de S. Paulo" publicou que o Judiciário havia aceitado a denúncia do Ministério Público contra o motorista de ônibus que atropelou a ciclista Juliana, em março/2012, na Av. Paulista. Assim, ele vai responder por homicídio culposo (sem intenção), acusado de agir com imprudência ao colocar o ônibus em faixa de tráfego não apropriada e de não manter a distância correta da ciclista, provocando sua queda e seu atropelamento por outro coletivo.

Vejam só... se o motorista tivesse obedecido a lei, Juliana estava viva (para lembrar da Juliana, clique aqui). A cidade é perigosa ou são os motorizados que são imprudentes? 

Propor que ciclistas saiam das ruas, é o mesmo que tirar o sofá da sala, dentre outras ideias esdrúxulas. A solução envolve melhorias físicas nas ruas e, principalmente, respeito a uma lei que traz regras simples de prudência. O Estado tem papel fundamental nisso, mas as ações do Governo de SP (sob a batuta tucana) e da Prefeitura da capital (sob o comando do elitista Kassab) tem sido fracas perto da demanda e das necessidades atuais.


Mais sobre esse assunto, leia na Carta Capital. E sobre pedalar nas ruas, veja aqui a entrevista que forneci para a Rede TV!.


* CONTRASSENSOS CICLOVIÁRIOS é a nova seção desse blog, que trará notícias sobre os fatos inusitados, ridículos e absurdos que contrariam a tendência mundial e também da nossa lei (Código de Trânsito) de olhar a bicicleta como um meio de transporte.

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